quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Geo-história da Cachoeira do rio Arari na paisagem cultural da Amazônia Marajoara.

Gente de Opinião
mapa pictográfico de Angyone Costa (1888 - 1954), pesquisador do Museu Nacional; autor da obra "Introdução à arqueologia brasileira - etnografia e história", coleção Brasiliana, apud Hiram Reis. Representação do polígono de sítios arqueológicos da microrregião Arari (Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras, Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure).




texto dedicado aos filhos e netos da Criaturada.


Consciente de meu modesto, porém honroso papel de ensaísta animador do conhecimento do espaço e do tempo do "homem do Pacoval" abordado originalmente por Raimundo Morais; formação do território da memória da "Criaturada grande de Dalcídio" na paisagem do passado e nas mudanças geográficas e históricas da Amazônia Marajoara; atribuo significativa importância geo-cultural à bacia do Arari a fim de idealizar a civilização marajoara. Claro está que se trata de uma utopia e utopias, iguais a estrelas tais como a constelação do Arapari (Cruzeiro do Sul) para a massagada aruaca; ou Guaraci (o Sol) para os tupi-guaranis em busca da mítica Yvy maraey (Terra sem Mal) onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte; na busca de quaisquer utopias nunca se chega lá... Todavia, sem utopia não se vai a lugar nenhum, pois os sonhos movem o mundo, dão sentido e direção ao destino humano. As utopias mostram o caminho, porém no andar da jornada é que se faz a chegada da viagem de cada vida.


O ovo da Fênix na boca da Cobragrande.

Só o futuro me interessa! E o futuro da mãe Terra com todos seus filhos e filhas juntos é a eco-civilização amazônica: espelho equinocial de um novo mundo. A Ilha do Marajó é portal das regiões amazônicas, cada uma delas um mundo novo diferente do outro. A Fênix mítica depositou seu mais precioso ovo lendário aos cuidados da grande serpente Amazonas, tal qual um novo Nilo caudaloso, rico de biodiversidade e diversidade cultural. Todavia, o que virá não pode ser feito do nada como a lenda da cobra-canoa que se chama Makara (mito do Rio Negro, segundo Ermano Stradelli), que pariu gente na forma de peixinhos para secar em riba das pedras de Cucuí. 

Pois foi do profundo Rio Negro, nascida do oco do mundo, que se surdiu de fato no meio do mato esta gente canoeira e andeja do chamado circum-Caribe que foi bater nas ilhas do mar ao sopé dos Andes até o Pantanal e a Baixada Maranhense, sem esquecer as ilhas do Golfão Marajoara... Gente brava e resiliente Aruak que foi a primeira das nações da Amerik ("país do vento", em língua maya) a enfrentar o choque civilizacional vindo como tsunami da velha Europa, em 1492.  Quem já leu Bartolomeu de Las Casas sabe do que se está falando... E quem for a Cuba poderá saber da história do cacique Hatuey, o primeiro rebelde da América hispânica; e seu sucessor guerrilheiro Guamá, cujo nome lá foi dado a um parque nacional e ao bairro de Santiago de Cuba e cá no Pará lembra o cacique dos Aruã e Mexiana, o qual nos inícios do século 18 ainda continuava a guerra começada entre tupinambás e nheengaíbas, desde o Maranhão nos começos do século 17... 

Este nosso Guamá marajoara era destemido bandoleiro, que deu azo ao sargento-mor Francisco de Mello Palheta, comandante da tropa de guarda-costa, a trazer o café furtado de Caiena na busca dele cacique do Marajó vivo ou morto; este Guamá foi contemporâneo do bravo Ajuricaba dos Manaus. Ainda hoje ele poderia ser lembrado no nome do rio que banha a cidade de Belém do Pará e do bairro mais populoso da capital paraense. Mas, quem é que sabe disto, por exemplo, no curso de História do campus Guamá da Universidade Federal do Pará? 

Assunto sem interesse acadêmico, como as esquecidas pazes de Mapuá, de 27 de agosto de 1659, após três tentativas de conquista armada fracassadas da Ilha do Marajó; negociadas com êxito pelo padre Antônio Vieira entre portugueses e nheengaíbas (confederação nuaruaque de índios Mapuá, Aruã, Anajá, Pixi-Pixi, Guaianá, Camboca e Mamaianá). O problema é, como escreveu Vieira em carta a el-rei datada de 29/11/1659 e publicada em 11/02/1660; que sem acordo dos belicosos Nheengaíbas, a conquista de Gurupá (1623) não se sustentaria e a grande entrada de Pedro Teixeira (1637-1639) desde Belém do Pará até Quito (Equador) não daria nada à tese do uti possidetis de 1750, reconhecido no tratado de Madri. Sem os tantos remos, canoas à vela de jupati e zarabatanas mortais dos guerreiros nheengaíbas convertidos ao catolicismo romano - o Glorioso São Sebastião de Cachoeira seja louvado! -, transformados em súditos do rei de Portugal; o país que se chama Pará teria sido uma vasta Amazônia holandesa ou inglesa. 

Tanto o passado quanto o futuro estão interligados e presentes aqui e agora com todos seres vivos ou imaginários. Sem a história tal como ela foi de fato, não importa o que a historiografia diga, eu e o leitor provavelmente não estaríamos hoje aqui. Carece saber, então, que fazer com as heranças da vida e da morte sejam elas boas ou más. É preciso conhecer a história para que ela não se repita... Pois o amanhã sempre está em gestação no presente prenhe de passado. 


no teso do Pacoval mais de 1500 anos nos contemplam

Das incipientes lições de engenheiros pés descalços nas aldeias antigas da Amazônia Marajoara, foram extraídas do barro dos começos do mundo a matéria-prima dos 'tesos' (sítios arqueológicos), da qual as primeiras nações das terras baixas da América do Sul saíram do estágio paleo-índio de desenvolvimento humano, há dez mil anos atrás. Assim, de cinco mil anos de nomadismo nas Ilhas de Dentro e Ilhas de Fora em busca do que comer na pesca de gapuia para pegar peixe do mato e camarão à mão nua, foi edificada por necessidade e acaso a primeira aldeia ribeirinha, mãe da cultura complexa da Amazônia -  Cultura Marajoara -, cerca do ano 400 da era cristã. Quer dizer, quando na Ilha do Marajó a criaturada assumiu o devido lugar no Trópico Úmido. Não é muita coisa talvez, mas legítimo, justo e valeu a pena.

Descendente daquela velha gente dos manguezais da varja, que dormia trepada na rede de palha armada nos galhos de pau; o homem do Pacoval - classificado por Alexandre Rodrigues Ferreira, curiosamente, como Homo sapiens, variação Tapuya -, não ficou mais lá enterrado dentro de uma "igaçaba" (camoti) na terra fria e encharcada do teso, aquele homem vem do passado distante ocupar o presente da mudança climática na Amazônia Marajoara a bordo da grande discussão planetária dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. 

Está na hora da Arte marajoara primeva dispersa no mundo lá fora retornar à ilha natal, como também o índio sutil Dalcídio Jurandir voltar ao chalé de Cachoeira para ser criança outra vez na figura imortal de Alfredo, jogar a sorte com o caroço mágico de tucumã sob a sombra maternal da árvore Folha Miúda, sonhar outros sonhos debaixo da ramagem com ninhos de passarinhos e estrelas do céu das imaginações infantis. Pois é preciso poesia nas grandes revoluções, de amarga basta a luta da vida no inferno verde.

Toda recriação é possível quando existe amor à arte e fé na vida... Pode-se dizer, então, que foi obra dos caruanas ou do divino Espírito Santo: de simples cacos de cerâmica indígena deixados ao relento depois do saque e contrabando do sítio arqueológico, o caboco Vadiquinho cutucou o padre Giovanni Gallo e este um, por necessidade e acaso; ganhou um presente extraordinário e pôde assim com o tesouro desprezado pelo povo ignorante das próprias origens, de repente; experimentar o estalo do padre Antonio Veira, na Bahia de Todos os Santos; para inventar um museu fora de série e acordar a gente marajoara despossuída de tudo (cf. Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, de Giovanni Gallo, 3ª ed., prefácio de Denise Schaan). 

A Cultura nacional brasileira e o vetusto IPHAN voltados, cem por cento, para a pedra colonial, sempre distantes do patrimônio do barro na ilha-museu natural Marajó. Eu imagino aqueles "cacos de índio" por acaso extraídos do teso do Pacoval por caçadores de jacaré panemas e ladrões de gado em dias de azar sem achar coisa nenhuma, entrando e saindo clandestinos com suas canoas pela boca do igarapé do Severino - Severino este que, bem desconfio, terá sido nome do sargento-mor de milícias da vila de Monforte (Joanes) Severino dos Santos, índio sacaca; guia costumeiro do inspetor Florentino Frade, conforme a "Notícia Histórica") -, certo é que o "igarapé do Severino", seja devido ao índio sacaca ou a outro Severino; deságua na boca do lago Arari em face da vila do Jenipapo. 


notícia do homem malvado, Marãyu / Marajó; i.é., Aruã.

Devemos admitir que a palavra tupi "marãyu" significa "gente má", donde vem o substantivo aportuguesado Marajó, que passou a nome da antiga ilha dos Nheengaíbas (falantes da "língua ruim"). A crônica jesuítica do século 17, compilada pelo historiador da Companhia de Jesus, padre Serafim Leite; relata que o nome "Marajó" vem do rio "Marajo-Guassu" (Marajó-Açu) que denominou a toda ilha e mais acidentes geográficos tais como a baía do Marajó... Importante observar que não se deve dizer ilha ou baía 'de' Marajó, mas sim 'do' Marajó... Será porque o topônimo primitivo se refere ao dito rio em cuja embocadura a ilha começa - no sentido de quem lhe deu este nome -, e mais depressa ao morador da referida ilha, o índio matador. Marajó "grande" na acepção de largo e "bonito", por oposição às cabeceiras chamadas Marajó-Ité (feio), por onde campos alagados e igarapés fechados vão aos centros da ilha. E, antigamente, varava ao "outro rio" (Arari), através das cabeceiras do igarapé Moirim...  

Os colonizadores portugueses não apenas foram guiados e levados pelos verdadeiros conquistadores da Amazônia, a nação Tupinambá; como adquiriram preconceitos deste povo guerreiro. Os malvados marajoaras, aos olhos tupinambás; eram sobretudo os belicosos aruãs que guerrearam de emboscada armados de zarabatana e dardos envenenados. Estes traiçoeiros guerreiros aruãs não permitiram estrangeiros entrar na ilha, se não muitos anos depois da expulsão de holandeses e ingleses (1623-1647). Nunca antes de 1680, colonos conseguiram penetrar a ilha: tal feito ocorreu no rio Arari e não precisa repetir o aviso do padre Antônio Vieira de que sem índio não havia caça, nem peixe, para comer, e não se podia ir a lugar nenhum: por acaso quem disse aos bons portugueses de Belém do Grão-Pará da existência de vastas campinas no interior daquela ilha grande? Só poderia ter sido aquele índio tupinambá, pau pra toda obra, que guerreava com os "nheengaíbas" desde a Baixada Maranhense, antes da chegada de qualquer europeu...

No tempo do índio sacaca Severino dos Santos, homem de aproximadamente 70 anos de idade, em 1783, quando Alexandre Ferreira o entrevistou; o risco de topar pela frente o bravio aruã, inimigo hereditário dos joanes; era ainda considerável apesar da guerra entre as duas etnias ter acabado no massacre dos aruãs na igarapé Água Boa (Salvaterra, 1686). E a missão secreta do inspetor Florentino Frade, antecedente ao sequestro das fazendas da missão da Companhia de Jesus (1757); requeria conhecimento do terreno e prudência para os jesuítas prestes a ser expulsos não desconfiar da espionagem: posto que sendo poucos os padres das missões tinham muitos olhos e ouvidos através dos índios catequizados das aldeias indígenas espalhas nas ilhas. 

Pelo longo relato de Severino dos Santos estampado na "Notícia Histórica" (1783), sabemos que os Joanes foram apelidados de Sakaka (de 'sakakun', "urgente" em lingua yona) durante faxina na construção da Fortaleza da Barra (1686), quando eles foram fazer amizade e pedir ajuda dos portugueses para se defender dos costumeiros ataques que sofriam em mãos do aruãs, a bem dizer desde a chegada destes, cerca de 1300. Então, a colonização da ilha do Marajó, finalmente, entrou com as patas de bois e cavalos, literalmente, nos campos de Cachoeira a partir de 1680 e em Ponta de Pedras desde 1686 com a fazenda São Francisco (Malato), doada ao sargento-mor Domingos Pereira de Moraes a par de outros Contemplados das fazendas dos jesuítas no rio Marajó-Açu e rio Arari, após expulsão dos padres e criação do Diretório dos Índios, em 1757. Além das fazendas de gado particular e das ordens religiosas, a colonização do Marajó tomou impulso com vinda de negros escravos, primeiramente no engenho da ilha de Sant'Ana, doada aos frades Mercedários, donde provavelmente procede a família Frade (originalmente "do Frade"), tradicionalmente marajoara, fruto de casamento de mulher afrodescendente alforriada e irmão leigo da ordem das Mercês.

Então, historicamente falando, se os colonizadores já contavam com arcos e remos tupinambás; a velha rixa entre aruãs e sacacas abriu um brecha formidável em Joanes e a chegada de negros africanos no Baixo Arari iria dar a mistura fina da etnia marajoara moderna, aliás começada por outra parte com a perigosa camaradagem entre os bravios Aruã, Anajás e outros "nheengaíbas", traficantes das Guianas, desertores e quilombolas vindos do Amapá ou morando no interior da ilha, como mostra o livro de Flávio dos Santos Gomes, A hidra e os pântanos: mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX). 

A negritude desembarcou no Marajó, primeiramente pela costa norte junto com mercadores holandeses que vieram com suas famílias e escravos das Guianas, em fins de 1599 em diante, escambar miçangas (facas, machados, anzóis, linha de pesca, espelinhos e contas de vidro) por conta de "drogas do sertão" (cacau, pimenta, castanha, urucu) e "gados do rio" (peixe boi, tartaruga e pirarucu). O padre Antônio Vieira relata que esse comércio chegou a movimentar até vinte navios de carne de peixe boi, por ano, dando ideia da matança desenfreada desses mamíferos aquáticos ora em extinção para atender à demanda das colônias "hereges" (protestantes holandesas e inglesas) e católicas ibéricas. 

Vicente Salles, no Vocabulário Crioulo: Contribuição do Negro ao Falar Regional Amazônico, traz à tona a provável origem africana do nome do rio e cidade de Afuá. Efetivamente, Afuá é nome feminino "Sexta-Feira" em certas comunidades africanas... Como terá chegado na Ilha do Marajó não é difícil de imaginar. O que se pode pensar, todavia na existência duma daquelas matriarcas de mocambo, nos centros do rio dos Anajás Grande, que se liga ao Arari através do furo Anajás Mirim, que deixou nome na história oral das populações tradicionais marajoaras. Prova de contatos inter-étnicos no recesso da fortaleza natural dos Nheengaíbas, donde a mestiçagem pelo casamento da necessidade com o acaso à margem do "testamento de Adão" (tratado de Tordesilhas, de 1494).

Diferente dos cariuás ("senhores maus"), castelhanos e lusos, que chegavam dominando e violentando terras indígenas fiados no império de seus reis; os panaquiris ("homens brancos", holandeses; do aruaque "pana" branco e "kiry", macho) se estabeleciam pacificamente mediante feitorias, como no caso de Mariocai (Gurupá), Orange e Nassau, no Xingu; e Torrego, forte holandês no Amapá; e por últimos do forte inglês de Cumaú, também na costa do Amapá. Os mercadores organizavam-se em companhias de comércio e se estabeleciam com residência com suas mulheres e filhos e casa de comércio e senzala de escravos trazidos para embarque e desembarque de mercadorias e remadores de canoa no interior dos rios amazônicos. Estes negros já chegaram aculturados das Guianas, deram origem a quilombos em toda região guianense.

Naturalmente, pretos e índios cedo se tornaram conhecidos e amigos uns dos outros por relação defensiva comum face aos senhores colonizadores. Quando houve a guerra de 1623 entre portugueses e holandeses, os primeiros se apresentaram no teatro bélico frente a 1.200 arqueiros e remadores tupinambás recrutados no rio dos Tocantins pelos frades de Santo Antônio; enquanto os holandeses se defenderam fracamente, com índios camaradas e escravos. Os que não foram logo capturados como "peças de Angola" presas de guerra; aproveitaram a oportunidade para fugir guiados, certamente, por seus camaradas nheengaíbas... Formaram assim mocambos vizinhos a malocas indígenas amigas: daí os conhecidos "índios bravios, desertores e escravos fugidos" dos centros da ilha de que fala a "Notícia Histórica", os quais mantiveram colonos afastados da ilha grande até 1680, quando Francisco Rodrigues Pereira levantou o primeiro curral de gado no rio Mauá (do tupí, "elevado"), tributário da margem esquerda do Arari. Seria o caso do "mauá" ser apelido dado pelos índios mansos trazidos de Belém para ser vaqueiros do primeiro fazendeiro da Ilha do Marajó? Elevado não é o terreno, mas o patrão... O rio do "mauá" fundador do primeiro curral de gado do Arari...

Logo, um índio caboco ("tirado do mato", civilizado), como Severino Sacaca seria indispensável à missão secreta do capitão Florentino da Silveira Frade, genro do capitão-mor da capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes e é isto que eu penso quando leio a "Notícia da Ilha Grande" (metade do século 18) e compreendo o motivo para o relatório permanecer com autor anônimo apesar de todas evidências. 

Deveras, a Companhia de Jesus era estado teocrático dentro do estado colonial. E o "malvado" Aruã um perigo e tanto, quanto mais quando catequizado por padre jesuíta para pastorear gado do vento (selvagem)! Ele erá o índio bárbaro vindo das Guianas que arrasou a antiga civilização marajoara iniciada mil anos antes, pelo ancestral "homem do Pacoval"... O belicoso aruã levou a velha guerra com o inimigo hereditário até os arredores da cidade grande do Grão-Pará (1723), cem anos depois da expulsão de seus parceiros "hereges" (protestantes holandeses e ingleses), o cacique bandoleiro Guamá sequestrou escravos dos portugueses para fazer escambo por armas e munição na distante Caiena. Caminho do feio é por onde veio...

O marãyu danado, velejador temerário e canoeiro pirata, levava medo tanto a portugueses quanto a tupinambás "mansos" (batizados e escravizados) e aos invejados joanes expulsos dos centros da ilha para a beira da baía do Marajó. Logo, para andar em terras percorridas pelos turbulentos aruãs carecia muita observação e prudência a fim de agir durante horas mortas. Mas, eu não penso que Vadiquinho tenha cometido abigeato ou contrabando de peças arqueológicas para dar de lambuja ao pároco que gostava de "coisas que não prestam", aquelas sobras da espoliação dos tesos. Acho, pelo contrário, que os "cacos de índio" lhe chegavam às mãos costumeiramente através de compadres ligados àquelas lidas perigosas, com exemplo de alguma "igaçaba" suficientemente grande e vistosa da qual se adonavam pela utilidade em aparar água de chuva para pessoas da casa tomar banho de cuia. Como esta gente marginalizada poderia adivinhar que aquelas peças raras eram, de direito, propriedade de uma senhora branca conhecida pelo nome de dona União, morando paresque no longínquo Rio de Janeiro? Dona União também era dona de terras de marinha, que os senhores fazendeiros teimavam em se adonar, como também dos tesos existentes dentro de sesmarias dadas pelos Barões. Quem eram os cabocos pra dizer que não? Mas, esta gente danada sabia que os brancos não sabem nada deste mundo geral.

Hoje em dia, há 46 anos depois deste fato singelo, a gente pode dizer que o Gallo briguento, Galinho dos pescadores do lago Arari, Lalá das crianças da vila Jenipapo e Cachoeira do Arari; "o homem que implodiu" atirou no que viu e acertou no que não viu, felizmente. Infelizmente, padre Giovanni Gallo morreu sem sequer desconfiar que ele, por acaso, havia inventado o primeiro ecomuseu brasileiro, tardiamente descoberto no berço mesmo da antiga Cultura Marajoara de mais de 1500 anos de idade. Uma civilização equatorial três vezes mais velha que o famoso descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral. E tudo isto a partir de simples cacos de cerâmica indígena que o tempo deixou ao deus dará e virou livro e deu artesanato, renda e emprego local! 


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Como será a cara do homem do Pacoval ?

A Ciência pôde restituir um rosto ao fóssil humano Luzia encontrado entre ossadas do antigo "homem" de Lagoa Santa, Minas Gerais. Certamente, na Ilha do Marajó se poderá realizar semelhante prodígio para revelar a face desconhecida do "homem do Pacoval"... Este ancestral da gente marajoara que levantou o chão encharcado do passado sobre as águas centrais da grande ilha do delta-estuário amazônico na construção do teso primordial: e agora, depois de tanto tempo, já se sabe do degelo das regiões do Ártico e Antártida que vai elevando o nível dos oceanos. Se a humanidade inteira não frear o aquecimento da Terra, nas próximas décadas cidades ribeirinhas como Nova Iorque, Rio de Janeiro e Belém do Pará estarão debaixo d'água... 

Os marajoaras amanhã, talvez lembrados de seus avoengos construtores dos tesos de camutins; também eles pouco a pouco poderão criar tecnologia hidráulica para dragar e aterra, continuamente, e vir a ser os holandeses tropicais do século 21. Retirando barro do fundo dos rios, lagos e igarapés seguir levantando o chão do rio Babel. Não precisa ser profeta para imaginar o que acontecerá nas Ilhas do Marajó se a temperatura continuar a subir... Por certo, apenas algumas 'ilhotas' altas e poucos tesos da antiga Costa-Fronteira do Pará - litoral de Cachoeira, Ponta de Pedras, Salvaterra e Soure -, ficarão acima das águas do dilúvio: jangadas de terra apinhadas de gente saídas de campos alagados, das varjas inundadas tal qual jangadas de náufragos. 

Que nem, paresque, o finado padre Luiz Figueira e seus companheiros de naufrágio na Baía do Sol, em 1645, cuja jangada improvisada foi levada pelas ondas e o vento a bater às praias de Joanes, onde segundo consta foram todos mortos e devorados pelos ferozes "aruans"...Menos verdade aruãs nunca foram canibais! Inclusive o padre grande dos índios propalou essa falsidade histórica, talvez inventada pelos antropófagos tupinambás para incriminar seus inimigos hereditários, presas habituais para venda de escravos aos portugueses. Sobre isto, convém saber primeiramente que os bravios aruãs não moravam em Joanes. Os matadores dos padres foram provavelmente os próprios índios Joanes, vítimas costumeiras de caçada de escravos para servir aos portugueses do Para, mas os Yona (chamados Joanes ou Sakaka) tampouco eles comiam carne humana.

De todo modo, na pior das hipóteses o cenário apocalíptico da subida do nível marítimo não será um tsunami, nem sequer um raz de maré; porém uma inundação duradoura lenta e gradual... Entre enchentes e vazantes a maré irá crescendo e invadindo as margens dos rios. As várzeas do arquipélago e matas dos furos de Breves ficarão submersas permanentemente. Mas, ainda há tempo para o povo do Marajó se prevenir e se adaptar. Que nem caboco da varja que sabe observar caracol do mato, chamado uruá; desovar na altura real da futura maré grande (águas de março): por esta simples prática o aprendiz da mãe Natureza levanta logo o assoalho da barraca. E quando a maior maré do ano, maré lançante; chegar na porta da casa não carece a família desembarcar da rede de dormir, no meio da noite escura e sair correndo pra canoa, arriscado cobra jararaca picar alguém. 

Então, a grande maré do século quando chegar e se chegar; há de encontrar a criaturada em riba de novos tesos urbanos, a exemplo da inteligente cidade de Santa Cruz do Arari que dispensou casas caneludas e se tornou uma urbe-teso aproveitando aterro de dragagem do lago Arari. Cadê os engenheiros hidráulicos especializados nas terras alagadas do Marajó? Queriam antes estuprar a ilha grande com a tal hidrovia faraônica, mas adaptar tecnologia de baixo custo para substituir estivas e levantar beira de rio, tais como a Vila da Barca, em Belém, e a beirada do Choque, em Cachoeira do Arari; cadê você? Nem seu Souza...

Para isto, enfatizamos a importância da arqueologia de Denise Shaan e das "notícias" da Ilha Grande de Joanes, a primeira de autor anônimo (provavelmente o fundador da freguesia de N.S. da Conceição do rio Arari, Florentino da Silveira Frade, em 1747) e a segunda de autoria do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira (1783). 

Ora, o autor anônimo deu a primeira notícia da descoberta do teso do Pacoval (bananal) do rio Arari, dizendo ele que encontrou o sítio no dia 20 de novembro de 1756, descreve sucintamente a tapera de uma aldeia extinta de muito tempo, com cemitério à ilharga onde se achavam "pandas" (potes de cerâmica) contendo caveiras... Já naquela data havia destruição de cerâmica arqueológica, provavelmente por índios aruãs que desde cerca de 1300, vindos das Guianas pela costa do Amapá, estavam invadindo e vandalizando as ilhas de Caviana, Mexiana e Marajó, empurrando pela guerra de conquista as mais velhas etnias, como a dos Yona (Joanes na corruptela em língua portuguesa, ou Sakaka) para a Costa-Fronteira do Pará. O autor anônimo informa que no teso do Pacoval encontrou maniva (planta de mandioca) de melhor qualidade que a dos moradores costumavam fazer roça.

A "Notícia Histórica" (1783) revela ser o inspetor da Ilha do Marajó, capitão Florentino da Silveira Frade, guia da viagem que Alexandre Rodrigues Ferreira fez ao Marajó; o descobridor do teso do Pacoval, na data indicada na primeira "Notícia da Ilha Grande", o que me dá convicção de que Florentino Frade é, na verdade, o tal autor anônimo. 

Então, eu fico me perguntado por que motivo Florentino teria ficado em anonimato, quando desta maneira podia ele ser estudado com todo direito em qualidade do primeiro naturalista da Amazônia Marajoara, que de fato foi. Escrevendo a seu respeito, Alexandre Ferreira diz, o rio Anajás é a "menina dos olhos" do capitão Florentino pela abundância de cacau nativo e madeira de lei que foi extraída para construção da fortaleza de São José de Macapá. 

Esta é uma informação relevante, dado como diz o próprio naturalista de Coimbra, a ocupação efetiva da Ilha do Marajó, somente aconteceu no ano de 1680, quando Francisco Rodrigues Pereira levantou o primeiro curral de gado, no rio Mauá, tributário da margem esquerda do rio Arari,15 anos depois da doação da "Ilha Grande de Joanes" ao donatário da capitania Antônio de Souza de Macedo, secretário de estado de Portugal; 21 anos depois da paz de Mapuá entre os sete caciques Nheengaíbas e o superior das missões, padre Antônio Vieira. 

Aos 57 anos da tomada de Mariocai (Gurupá) aos holandeses e 64 anos da fundação do forte do Presépio e cidade de Belém do Grão-Pará. O que aconteceu para demora de ocupação pelos colonos portugueses da cobiçada ilha dos Nheengaíbas, ou dos Aruans, ou de Joanes, Marajó, Marinatambalo chamada pelo espanhol Vicente Pinzon, o qual em 1500, assaltou uma aldeia talvez aruã da Contra Costa levando 36 "negros da terra" (escravos indígenas), ou seja Analau Yohynkaku, em língua aruã.

Óbvio que Florentino da Silveira Frade foi informante de Alexandre Rodrigues e que a "Notícia Histórica" se apresenta como documento tendo por base o conhecimento do território que o inspetor havia, expresso na "Notícia da Ilha Grande"... E o fato implícito naquelas duas notícias é que "os índios bravios, desertores e escravos refugiados nos centros da ilha" - isto é, guerreiros aruã que até inícios do século 18 sustentaram a velha guerra contra o inimigo hereditário tupinambá e aliados deste, acolheram escravos e soldados desertores, aldeias e quilombos que resistiram até hoje nos mondongos e na jebre formando, naqueles "centros" de outrora, perigoso território de ladrões de gado e piratas de rio  -, a "Notícia Histórica", portanto é documento incontornável nos estudos históricos e geográficos do delta-estuário do maior rio do mundo. E Cachoeira do Arari centro histórico para tais estudos.


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capa do livro de Raimundo Morais (1939)


O capitão-mor da capitania dos Barões de Joanes

Florentino da Silveira Frade era genro de André Fernandes Gavinho, lugar-tenente dos Barões de Joanes; nascido na Espanha e naturalizado português. Gavinho era formado em Direito, homem colonizador ele chegou ao Pará cerca de 1740, onde se tornou sesmeiro e fazendeiro na ilha do Marajó, homem de confiança do governo colonial português prestes a entrar em conflito com a Companhia de Jesus no Grão-Pará, que teve seus bens expropriados a fim de dar lugar ao "Diretório dos Índios" (1757-1798). Convém saber que a colonização das ilhas do Atlântico Sul pelos portugueses começou na ilha da Madeira, o verdadeiro centro náutico dos descobrimentos marítimos.

O latifúndio e morgadio (herdade do filho primogênito) predominou na expansão colonial portuguesa, e assim foi também com a Ilha do Marajó, como o romance Marajó, de Dalcídio Jurandir, faz o retrato falado inspirado também do romanço medieval ibérico Dona Silvana, diz Vicente Salles em Chão de Dalcídio; onde o tema do incesto comparece: desejada Orminda é a anti-heroína do romance marajoara cantada nas chulas, disputada em duelos sangrentos... Dura realidade e fantasia nas ruínas edílicas do romance.

O sogro de Florentino foi capitão-mor, lugar-tenente, ouvidor e Governador Geral da Ilha Grande de Joanes, foi Andre Fernandes Gavinho pai de André Fernandes Gavinho, cunhado de Florentino da Silveira Frade; quem assinou o termo de encerramento do livro de registros de datas de sesmarias confirmadas da Capitania hereditária de Joanes, tanto das sesmarias concedidas pelos Barões da Ilha Grande, como das concedidas por Dom João V, Rei de Portugal, no intervalo de 15 anos, vacatura ou menoridade do último Barão da Ilha Grande de Joanes [Marajó].

Ou seja, Gavinho é patriarca do regime de sesmarias do Marajó velho de guerra. Em 1772, em um dos ofícios do Governador e Capitão General Pereira Caldas, consta pedido do capitão Gavinho, sobre a conservação do posto de Capitão-mor de Ordenanças da Ilha. Proprietário de Sesmaria datada de 20/11/1743, onde fundou ele a "Fazenda da Cachoeira" às margens do Rio Arari, na qual levantou Capela, em 1747, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Com o progresso da fazenda, nasceu a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, cujas terras patrimoniais foram doadas em testamento de 25/10/1747. Com título de 'homem bom" André Fernandes Gavinho foi agraciado com o Hábito de Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo, em 1755.

Gavinho era casado com a fidalga portuguesa dona Escolástica Josepha do Nascimento, tendo entre outros filhos, André Fernandes Gavinho (filho), capitão-mor da Vila de Monforte em 1763 (antiga aldeia de Joanes), por graça de Dom José I, rei de Portugal; Pedro Fernandes Gavinho, proprietário de sesmaria na Ilha de Marajó; José Francisco Fernandes Gavinho, abastado proprietário de terras na Ilha de Marajó, onde fundou a capela de Santo Antônio, capitão-mor da Ilha. Deixou geração do seu casamento na importante família Silveira Frade, também proprietária de terras na Ilha.



Palavras (quase) finais.


Depois desta longa rodada de tempo, desde o achado do teso do Pacoval pelo capitão Florentino da Silveira Frade, em 1756; o padre Giovanni Gallo, que em 1973 havia recebido o presente de Vadiquinho para invenção dO Nosso Museu de Santa Cruz do Arari foi recompensado de suas angústias e frustrações, no ano do Sesquicentenário de fundação de Cachoeira do Arari. Ano em que a velha freguesia de N.S, da Conceição da Cachoeira do rio Arari ganhou o maior presente que essa boa gente poderia desejar àquela altura: O Museu do Marajó, inventado em 1973, por acaso, em Santa Cruz do Arari; Poderia ter sido um eco-museu, o primeiro do Brasil; se o padre dos pescadores do Jenipapo tivesse conhecimento da revolução museológica na França iniciada por Georges Henri-Rivière e Hugues de Varine


Mas, não adianta o mundo todo falar dos encantos naturais e culturais da Amazônia Marajoara. E, afinal, o Brasil descobrir que o Pará é um antigo país que tem porto no Caribe... Se o próprio povo paraense continuar ignorante de si mesmo e metade da população do "maior arquipélago fluviomarinho do planeta" permanecer analfabeta de pai e mãe... 

Do que vale a Criaturada grande de Dalcídio ser herdeira de um rico patrimônio, se ela nunca ouviu falar sequer de Alfredo e o caroço de tucumã... Se o chalé de "Chove" foi ao chão entre chuvas e esquecimentos. Cachoeira do Arari é terra de gente ilustre onde a história do Marajó mora no coração e na memória do povo: basta convocar reunião ordinária no Pau do Fuxico ou marcar assembleia da Irmandade do Glorioso São Sebastião, que já se vai saber das últimas e das antigas histórias da velha Cachoeira do rio Arari... 

Não importa que no rio das araras estas aves sumiram, nem que a cachoeira desapareceu levada pela cobra grande. Uma cidade educadora, museu a céu aberto com sítios arqueológicos, o chalé de "Chove" e o museu do Gallo são capazes de operar um renascimento formidável! Porém, ninguém de fora poderá determinar o que a gente deve ou não deve fazer... Nem o Presidente da República, nem o rei de Espanha tem com obrigar um búfalo no banhado a se levantar e caminhar se ele não quiser... Nem o Papa poderá convencer um caboco a ir à missa se o cara preferir balançar o esqueleto numa mucura esperta. O padre Gallo havia alma de etnógrafo e sabia compreender a manha do caboco marajoara, mas ele mesmo com toda sabedoria "implodiu" sob o peso desconforme da incompreensão dos senhores e senhoras desta gente condenada ao caritó desde o Diretório dos Índios. 

São os próprios cidadãos cachoeirenses que devem assumir o protagonismo da sua história. Mostrar a todos outros mais marajoaras a saída. Dizer aos amigos e amigas do Marajó o que a gente espera deles para colaborar na melhoria do IDH dos 16 municípios. Cachoeira tem potencial para reverter a situação, mas carece buscar consensos efetivos para chegar a resultado real. O tempo voa! Mas se a gente acertar os ponteiros e aproar no rumo certo já será meio caminho andado. Não importa quanto tempo passado ou quando futuro ainda faltará para a gente chegar lá.




Os Tesos de Marajó - Gente de Opinião


A arte marajoara primeva, um dia no futuro, voltará do exterior para a ilha do Marajó onde ela nasceu. Não sei o dia nem sei a hora que esta demanda pelo repatriamento do patrimônio cerâmico terá fim. Provavelmente, eu não estarei mais por aqui em carne e osso. Já estarei encantado se eu tiver merecendência. Todavia morrerei feliz se algum dos filhos e netos da Criaturada embarcar nesta ideia da saga do homem do Pacoval,´:

Os Tesos de Marajó - Gente de Opinião

A saudosa arqueóloga Denise Schaan e equipe em trabalho de campo. Tempo passado que volta a ser semente de novas criações, urge abrir as portas dos museus e recontextualizar a história dos criadores da obra primeira. Inventar o futuro.


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sábado, 26 de janeiro de 2019

Meu encontro com Giovanni Gallo


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Só tive contato com o padre Gallo em 1994, quando eu estive cedido pelo Itamaraty à Prefeitura de Ponta de Pedras durante gestão de Bernardino Ribeiro. Esse primeiro contato teve um "curto circuito" produzido por mal entendido e o bom amigo dr. Camillo Vianna se apressou em evitar o pior intervindo para me apresentar ao padre Gallo. Antes de continuar a falar daquele meu primeiro encontro com o "Homem que implodiu" e ficar amigo e admirador dele para sempre, convém dizer que desde quando eu me entendo por gente, o lago Arari e a vila de Cachoeira foram uma fascinação permanente para mim. Cresci escutando minha mãe contar histórias da fazenda Diamantina e do sítio Porto Santo onde ela viveu a infância e adolescência. Meu pai adorava Cachoeira onde passava temporadas no famoso chalé do romance "Chove nos campos de Cachoeira", com seu pai e os irmãos do segundo casamento do capitão Alfredo Pereira, meu avô e o futuro escritor Dalcídio Jurandir; as recordações de meu pai eram tão vivas que eu até sentia saudades daquilo que não cheguei a ver... O Arari, portanto, é um Marajó à parte entre outros Marajós de duas mil ilhas do maior arquipélago fluviomarinho do mundo, mais a microrregião continental de Portel. Desta maneira, o museu do padre Gallo poderia ser entendido. sobretudo, inicialmente como ecomuseu do Lago e mais tarde museu comunitário do Arari inteiro. O Marajó é um mundo...

Eu fui um pirralho muito curioso em querer descobrir quem inventou o mundo, ensaiei meus primeiros passos no bairrozinho chamado o Fim do Mundo, na vila de Itaguari (Ponta de Pedras), cedo conheci o sítio Serrame, de meu avô materno, no Curral Panema, próximo da divisa entre os municípios de Cachoeira do Arari e Ponta de Pedras. Porém, somente em 1956, aos 19 anos de idade, naveguei o "outro rio" como a gente do Marajó-Açu se referia ao Arari e, finalmente, conheci o Lago...A gente não falava "lago Arari", embora existam outros, mas dizer apenas Lago significa o maior e mais emblemático de todos os lagos da grande e misteriosa ilha do Marajó. Para os marajoaras nativos havia algo sagrado no Lago e para mim era como a volta ao paraíso. um descobrimento, embora já não fosse mais como no tempo de meus pais. Fui como outrora faziam os "goiabas" (marreteiros oriundos de Ponta de Pedras), em canoa a remo com um camarada um ano mais velho que eu: da boca do furo das Laranjeiras para cima eu não conhecia nada e o companheiro já havia chegado alguma vez até Cachoeira do Arari, dali em diante eram só relatos de um tio do parceiro, velho canoeiro do Arari. Duzentos e tantos quilômetros, de ida e de volta, naquele rio meandroso e retorcido que nem cobra grande, de águas vagarosas. Tivesse eu o talento de Dalcídio e a perspicácia do Gallo o manancial destas memórias teria dado uma obra extraordinária,

Naquele tempo, não se conhecia embarcação motorizada na região; era só canoa a remo ou lancha vapor a rebocar canoas geleiras e a fileira de montarias (canoas a remo). Acontece que eu e meu camarada éramos tão alienados que escolhemos fazer a sonhada viagem no dia da eleição para governador do estado, foi a derradeira que o famoso governador Magalhães Barata competiu... Então, nós fomos na fiúza de que a lancha vapor Aida viria como de costume com as geleiras a subir o rio até o lago. Esperando na boca do furo Laranjeiras vimos a maré encher e a lua surgir até que passaram por nós uns cabocos nos avisaram que a lancha não viria, porque era o dia de eleição e a dita lancha estava ocupada a buscar eleitores em Belém para votar na Cachoeira... Resolvemos então, continuar a viagem a remos e quando foi a volta perdemos, de novo, o reboque da Aida. Desta vez, porque o camarada errou o pulo com o cabo de atracação na mão e caiu nágua... Noite fechada, e lá se foi a lancha na baixada com a fieira de geleiras e montarias a reboque. Três dias e três noites a bom remar de ida e volta. 

Dizendo isto como introdução ao meu encontro com o padre Gallo para mostrar que quando ele chegou a Santa Cruz eu já tinha passado por lá, inclusive numa temporada a convite de Pidizinho (Eurípides Pamplona Filho), causador segundo padre Gallo da mudança do Museu do Marajó para Cachoeira do Arari, em 1983, dez anos depois de sua criação. Mais outra ocasião, já como repórter do Jornal do Dia, acompanhando o dono do jornal Pedro Carneiro e o senador Catete Pinheiro, que tinha acabado de ter sido ministro da Saúde no breve governo do presidente Jânio Quadros. 

Portanto, embora o Gallo já fosse famoso eu não o conheci antes de 1994 e de uma maneira desagradável. Ele vivia traumatizado pelo fato de sua escolha em favor do museu e as consequências dramáticas dessa escolha, em conflito com o bispo dom Angelo Rivatto e com Pidizinho, chefe político do município, amigo do governador Jader Barbalho. Conforme se pode ler na obra autobiográfica "O homem que implodiu", o padre acusava o bispo de persegui-lo e tentar destruir a tábua de salvação que o museu representou para ele. Gallo começou a ficar meio paranoico vendo o dedo de Rivatto em tudo que lhe parecia hostil. 

Coincidiu com a eleição de Bernardino para a prefeitura de Ponta de Pedras a ideia deste em prestar homenagem a Dalcídio Jurandir mediante construção de um memorial no qual, com consentimento da família, os restos mortais do ilustre filho da terra seriam trasladados do Rio de Janeiro para Ponta de Pedras. Bernardino havia sido revisor do jornal O Liberal e tinha facilidade de publicar notícias de interesse do município. Assim, uma pequena e confusa nota saiu no jornal informando sobre suposto projeto de construção do tal memorial. O bastante para um recorte chegar às mãos do padre com interpretações e comentários maldosos de que aquilo seria mais um artimanha do bispo agora com acordo do prefeito Bernardino para esvaziar o Museu do Marajó em Cachoeira do Arari e levá-lo para Ponta de Pedras forçando o padre à obedecer a seu superior eclesiástico. Enredo perfeito para uma novela de televisão, só que não havia nisso um pingo de verdade. 

Correram a pedir ajuda de Camillo Viana, presidente da SOPREN, a fim de evitar o projeto conspiratório de Ponta de Pedras contra Cachoeira. Na cultura paraense as rivalidades entre clubes, partidos, igrejas e municípios são fora de série... Convidado a participar de reunião da SOPREN a respeito do caso, foi quando tive oportunidade de conhecer o padre Giovanni Gallo e seu fiel escudeiro Antônio Smith. Cachoeira e Ponta de Pedras foram durante anos irmãs inimigas, a política costumeira longe de amenizar ressentimentos estimula concorrências fora de propósito. Vimos que ao contrário do que parecia, nunca um monumento de homenagem a Dalcídio poderia ser desfavorável à cidade adotiva que o escritor mais amou por ter crescido nela, mais do que a terra onde ele enterrou o umbigo. Pelo contrário, unidas pelo mesmo afeto ao grande escritor marajoara Cachoeira do Arari e Ponta de Pedras poderiam compartilhar de projetos e atividades conjuntas do Museu do Marajó e eventualmente de entidade pontapedrense, De modo que o tal memorial acabou não saindo do papel. Principalmente, devido o fato da família de Dalcídio Jurandir ter aceitado a homenagem que pudessem fazer, mas não concordou que se tirasse do Cemitério São João Batista, onde se encontram seus restos mortais, na cripta reservada à Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Amazônia Marajoara: o legado de Denise Shaan como base para uma política de estado.

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Pela rede ficamos sabendo da visita do governador Helder Barbalho à ilha do Marajó vinte dias após ele tomar posse do governo. Não poderia ter data mais significativa para o novo governador ir ao chão de Dalcídio: Dia de São Sebastião e Dia Nacional da Consciência Indígena. Sua Excelência iniciou a viagem em Soure, foi a Salvaterra e encerrou a jornada em Cachoeira do Arari: nesta cidade viu o mau estado de conservação do Museu do Marajó, fechado ao público. Na ocasião, assinou termo de convênio com a Prefeitura Municipal para obras de recuperação necessárias e retornou à capital estadual levando a obra Cultura Marajoara, de Denise Pahl Schaan, como lembrete

É deste livro que eu quero falar. Não se trata de obra científica, nem mesmo do livro Remando Por Campos e Florestas que Denise escreveu com Agenor Sarraf e Jane Felipe Beltrão, destinado à educação escolar. Trata-se de obra de divulgação para público leigo, a história da antropologia marajoara e o papel do Museu do Marajó como museu comunitário de fundamental importância na educação patrimonial da gente marajoara e na formação de uma opinião pública favorável ao conhecimento e preservação da cultura marajoara. 

O Museu do Marajó é fiel depositário de peças de cerâmica arqueológica legalmente de propriedade da União, assim como colecionadores particulares no País a par de museus nacionais como o Museu Paraense Emílio Goeldi e outros. Todavia, a propriedade de cerâmica marajoara por instituições estrangeiras, mencionadas no dito livro; pode ser questionável. E ainda que não seja, o ideal seria o repatriamento das coleções atualmente no exterior de maneira a constituir projeto de cooperação internacional sob a égide da UNESCO.

E aí vemos o paradoxo dessas coleções de cerâmica marajoara em museus estrangeiros face à pobreza humana no rico potencial natural e cultural do maior arquipélago fluviomarinho do planeta, situado no delta-estuário do maior rio do mundo! Bem ou mal, meio milhão de marajoaras vivem na mesorregião maior que o território do Rio de Janeiro, enquanto alguns países insulares independentes possuem menor tamanho e população. Mas, falar de repatriamento simplesmente para trazer o acervo primevo da amazonidade para grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou mesmo Belém; seria decepcionante. Sobretudo, diante das imagens do incêndio do Museu Nacional. Lá se foram as primeiras peças extraídas do teso (sítio arqueológico) do Pacoval, em fins do século XIX, por Ladislau Neto e Ferreira Penna, das quais uma parte selecionada foi remetida para a Exposição Universal de Chicago de 1893, comemorativa dos 400 anos da chegada de Colombo. 

480 anos depois de Colombo iniciar a destruição das Índias Ocidentais (cf. Bartolomeu de Las Casas, Brevíssima relação da destruição das Índias Ocidentais) e 472 anos após o espanhol Pinzón arrastar 36 "negros da terra" (escravos indígenas) - os primeiros da América do Sul -, da ilha Marinatambalo (Marajó) para o cativeiro da ilha Hispaniola (Haiti); o "índio sutil" Dalcídio Jurandir recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; e o jesuíta Giovanni Gallo fundava o Museu do Marajó no berço da civilização marajoara de 1600 anos de idade; há 314 anos das pazes de Mapuá (Breves) entre portugueses e tupinambás de uma parte, e nheengaíbas (marajoaras) de outra graças as tentativas de paz do padre Antônio Vieira.

Dos restos desta história esquecida, foi inventado o Museu do Marajó a partir de "cacos de índio", provavelmente sobras do contrabando e saques do teso do Pacoval, no Igarapé do Severino; fronteiro à vila de pescadores do Jenipapo (Santa Cruz do Arari). No prefácio à terceira edição (2005) de Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, de Giovanni Gallo; Denise Schaan frisa o aspecto da resinificação da cultura marajoara ancestral pelas novas gerações.


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O Brasil, o Pará e a Amazônia Marajoara de acordo com o pacto federativo, devem inserir este patrimônio singular mediante uma política de estado para o desenvolvimento humano. Trata-se sim da Arte primeva brasileira cujo resgate deve ser condição sine qua non para inclusão social da gente marajoara no bojo da Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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